08 junho 2011

De volta pra casa


me reencontrei em londres
um fantasma que nao me visitava
chegou falando uma mistura pouco usual de linguas
o dia estava chuvoso, como se nao pudesse ser diferente
e mais uma vez eu queria ter a sensação de que você estava por perto
talvez por sentir tua presença, ou nao
talvez por sentir-me só e ter os olhos marejados
e então querer que toda a profundidade da minha tristeza voltasse
e me levasse de volta pro meio do inferno que sempre vivi tão bem

o problema de envelhecer são os vazios que carregamos
não um vazio de busca do novo, de potencialidades
mas um vazio daquilo que se foi e não mais se preencheu
o som do piano baixinho decora o quarto do hotel
sufocando meu choro e minha nostalgia

estou calmo e tranquilo, mas no caminho errado
entram as trompas...e sua imagem, no alto
traz a suavidade das cordas que nos ataram de forma tão enigmática
o que é o certo?
volta a fazer frio, mas o piano lento e arrastado continua a me aquecer
a pouca luz me ajuda a perder a dimensao da distancia que ficou em mim
no choro contido pergunto por mim...e o tema completa mais uma volta
como se o piano me desse o ombro e deixasse que o menino finalmente encontrasse um colo
e assim chorasse copiosamente
e acreditasse, simplesmente acreditasse...
apenas acreditasse... todos os dias

03 julho 2008

À deriva


Conduzido a chicote pelos caminhos da vida, construi o labirinto onde me perdi de mim. Sei o meu lugar, mas não me encontro nele. Pregador da renúncia, não me desapego. Narciso cego, amo a máscara. Afogado nas minhas verdades, não posso resgatá-las das profundezas. Então eu lavo as mãos, rio dos meus conflitos e sigo à deriva nesse "grande mar que cerca a ilha de náufragos que é a vida".

21 janeiro 2008

O resgate do Traficante


I.
O dia não amanheceu.
Eu me encontrava acordado
O sonho não aconteceu
A vida tomou novos rumos
e um estranho parecia habitar meu espelho

O problema dos dias cinzentos
é que dão a impressão de que o sol morreu
de que a alegria não mais nos servirá
de que a nossa capacidade de amar amarelou
de que a nossa energia pra renascer
deu lugar a uma morte lenta e amarga,
de que somos desinteressantes e feios,
de que não merecemos alguém, que porventura,
ainda se engane (ainda) nos querendo bem,
seja porque não percebeu que um monstro passou a nos habitar,
seja porque sabota o nosso 'mood' de "não sou digno de amor".

Não caibo na minha casa
Não sirvo nas minhas roupas
Não gosto dos meus livros
Não me aguento mais
Não me encontro em mim

Não consigo gostar
Não almejo sorrir
Não suporto ninguem
Não preciso acordar
Minha barba cresce me aproximando de mim
Meu sono me alivia do peso das horas que custam a passar
Meu sexo é apenas um lembrete
de que ainda existe vida em alguma parte do meu ser
Meu nexo é apenas um farolete
cujo alcance não me permite ver futuro além da próxima hora.


II.
O dia amanheceu
Saí do tunel que me aprisionava
Não me questiono por onde andei
mas como fui parar lá?

Não me censuro pelo que fiz
mas como nao percebi?

Não me torturo por que não fui
mas como não retornei?

E entendo que não sou mais aquela pessoa
e que simplesmente fluí,
como aquele rio pelo qual ninguém passa uma segunda vez
Mas fluí livre, com minha própria energia
renascendo e ressucitando meu ser
me resgatando em cada pedra, cada tombo
em cada queda, cada encontro,
em cada sonho e cada assombro
em cada choro, cada desconforto
em cada dor, em cada confronto
cada solidão, cada desencontro
em cada mão, em cada ombro
em cada chão, em cada pranto
em cada colo, cada acalanto
em cada flor, em cada encanto
em cada reza, em cada manto
em cada toque, em cada ponto
que me trouxe a mim
forte
feliz
realizado
pronto pra recomeçar

...mas agora completo

18 novembro 2007

A morte nossa de cada dia


Fui ao meu enterro hoje
Alias...entendi como tenho morrido todos os dias.
Fitei um caixão, com a certeza de que parte de mim estava encerrada,
enterrada pra todo o sempre.

Não falo com tanta tristeza,
mas com toda a impotência que senti ao descer com aquele caixão.
Achava que a vida estava dentro de mim,
mas entendi que esteve em cada interação que vivi.
Achava que a vida estava cercada na ilha que somos, cada um de nós,
e mais uma vez, entendo que está e esteve em cada nós que vivemos a cada dia.

Falta poesia pra expressar esse sentimento,
falta emoção pra exagerar esse pensamento,
falta intensidade pra gravar esse momento.

Não consegui entender meu amigo dentro daquela estante de madeira
não consegui medir a tristeza daquele momento.
No meu egoísmo...só pensei no quanto eu deixei de viver aquela potencialidade,
no quanto eu deixo de trocar, de interagir com pessoas que me dizem.

O que é a vida senão viver?
O que é a morte?

Penso no que eu mesmo tanto digo...
"a vida é o que acontece com você enquanto está ocupado fazendo outros planos" (JLennon)
"mesmo um relógio quebrado está certo duas vezes por dia"

Afinal, não importa aonde estamos ou o que estamos fazendo,
estamos em algum lugar,
estamos em algum momento,
e é nesse preciso momento que a nossa vida está acontecendo.
Portanto, a arte da vida está em fazer desse momento um momento de vida.

Tem tantas pessoas com quem eu poderia viver tanto...
Tenho tantas chances de criar uma vida significativa...
e cada momento não vivido é um momento "morrido"

A vida poderia ser levada à uma nova dimensão.
Uma dimensão de alegria, de troca, de vida.
Gostaria de pedir desculpas a todas as pessoas com quem morri
Gostaria de tentar entender porque eu nao vivi quando eu pude
Gostaria de voltar àquele cemitério pra me resgatar...

Hoje eu entendo que parte importante da minha vida já foi enterrada.
E me surpreendo de não ter tido a dimensão de entender
o quanto de mim era sepultado em cada uma daquelas cerimônias...
partes importantes de uma história que ficaram sem fim
partes de uma potencialidade de troca que agora fogem à minha capacidade de vivenciar.

Me pergunto então o quanto deixei de viver,
o quanto deixei de brincar, de rir, de chorar, de tocar...de trocar.
Minha capacidade de vida está ligada à minha capacidade de interação.
E agora que pessoas se foram, vejo o quanto meu mundo encolheu.

Não meço meus dias pela quantidade de horas
mas pela intensidade das trocas.
Sou tão extenso quanto consigo me dar.
Sou tão intenso quanto consigo tocar.
Sou tão imenso.

O mundo tem medo de si
as pessoas se contraem
Como dizia Wilde, parecem mendigos...esfomeados
Vivas aos que tem coragem, aos que trocam...aos que vivem.
Pois a troca é a única forma de contato, o único meio de entendermos
de sermos, de nos plastificarmos.

A cada vez que volto ao cemitério sinto uma estranha sensação de "casa"
de saber que tanto de mim já foi lá imortalizado...ou finalizado.

Novas portas se abrem a cada dia.
Novas chances de comunicar, de trocar, de viver.
Começo a entender algo que me assusta.
Começo a mudar meu conceito de existência.
Entro em metamorfose.

30 setembro 2007

Divagações: essência


Corajosa evolução: permanecer quem você é.

03 fevereiro 2007

Diálogos: de mim para ti


Liberte-me: livre-se de mim.

22 janeiro 2007

Minhas palavras...seus sentimentos


Não tente me encontrar em minhas palavras
busque você
Não tente me descobrir em minhas metáforas
ouça o que vibra em você
Não tente entender minha poesia
Essa é a minha droga, a minha utopia
Essa é a minha toca, a minha abadia
a minha morte, a minha alegria
Esse é o meu delírio

Não me reduza a uma sopa de letras
não me traduza
Não me seduza
Não me encomende desculpas
Não me comente
Não se contente

Não critique meus pontos
entenda que são apenas contos
Não simplifique os entornos
olhe pra dentro
Não classifique os pronomes
Não troque os nomes
Não adjudique os sentidos
Não esclareça os perigos

Quando me ler, ouça você
Se não fizer sentido
aceite minhas desculpas pelo tempo perdido
Minha poesia transcende a mim
Minha loucura espalha o carmim
Minha caneta tem vida própria
Meu silêncio entorna, derrama, exclama

Meu desespero não é meu
é apenas a reverberação da tua alma

Meus textos não deviam ser levados a sério
saem porque latejam
escorrem rápido
sem tempo de censura
sem lógica e sem mesura
sem ética, sem tortura
como um desejo
quase um lampejo
um alívio
um gozo
Saem porque tem que ser
caem porque são pesados pra ficar no ar
tocam quem têm que tocar
Sou apenas um meio
tenho apenas um veio
Aqui não amo, nem odeio

Não me confunda com o que lê
Apenas leia
Não interprete, sinta
Não me pergunte, intua
nao me responda

Faço porque gosto
pelo simples prazer de acabar
pelo simples voar
pelo simples voltar
pelas distâncias que percorro pra chorar
pelas nuanças das frases, das crases
pela alegria, pela covardia
pela parceria

"O Poeta é um fingidor"
o leitor é um caçador
o poeta mente
o leitor sente
o poeta seduz
o leitor consente
o poeta exagera, aumenta
o leitor pondera, acrescenta
o poeta é falso, se corrompe
o leitor é livre
o leitor é um voyeur
vibra, ama, chora, cora
grita, despreza, toca, sufoca
...lê
...caminha
...em uma única direção
...a de si mesmo

20 janeiro 2007

Podia...mas nao fui

Entre o que eu podia e o que eu não fui
mais uma vez parado na ponte
mais uma vez com o mundo nas costas
mais uma vez com a angústia me corroendo e me corrompendo
eu posso parar o trem a qualquer minuto
eu posso mudar a vida a qualquer hora
mas assisto a crônica da morte anunciada
assisto sonhos partindo sem conseguir olhar nos olhos da vida
assisto o tudo que poderia....porque eu não fiz ser

Só há uma forma de viver. Vivendo.
Tudo o mais é morte.
E eu morro a cada dia.
Carregando potencialidades comigo.
Contemplando possibilidades.
Me preparando pra uma guerra que nunca vai existir.
A vida passa...eu fico.
Hoje...mais uma vez faltou coragem.
Faltou certeza.
Uma certeza que nem existe, nem nunca existira.
Hoje faltou renúncia.
Hoje faltou ação.
Hoje faltou verdade.
Hoje sobrou saudade.
Hoje meus olhos quase me trairam.
Minhas lágrimas quiseram vazar.
Minhas páginas quiseram mostrar.
Mas eu teimo em deixar tudo voar.
Em deixar tudo acabar.
Em deixar tudo continuar...à margem de mim.

Tenho medo de estar morrendo
Tenho medo de estar me despedindo de tudo.
Tenho medo de estar me desculpando pro mundo.
Será que só eu penso que poderei errar
Será que só eu sinto viver personagens que não são minhas.
Será que só eu lamento pelo que possa dar errado antes mesmo de começar.
Volto a pedir que a inconseqüência guie os meus atos.
Que a lama toda me alcaçe os sapatos.
Que a vida aconteça.
Que o dia amanheça.

Eu sou o vigia do mundo.
Responsável por tudo e todos ao meu redor.
Eu não erro.
Eu não ferro.
Eu sou bom.
Eu sou limpinho.
Eu sou meigo.
Eu sou doce.
Eu sou culto.
Eu sou certo.
Eu sou concreto,
educado,
discreto,
calejado,
direto,
um soldado.

Eu sou tudo o que se pode querer que alguem seja.
Mas minha vida está passando....e tudo está errado.
Tudo está manchado.
Tudo está dobrado....pois nada é usado.
Que a inconseqüência guie os meus atos.
Que a incoerência crie os meus fatos
Que a maledicência venha
Que o conflito venha também.
Que a disputa venha...com seus louros e seus espinhos
pra que eu possa sentir o sabor de ambos.
Mas que eu viva uma vida normal
Que eu crie uma história mortal.
Que tenha risos, que tenha dores.
Que tenha chuvas, que tenha flores.
Que tenha curvas, que tenha amores.
Que tenha tato, que tenha cores
Que tenha olfato, que tenha odores
Que seja normal.

Chega de confusão
Chega de excessos
Chega de abundância
Chega de retrocessos

"Eu quero a sorte de um amor tranquilo"

18 janeiro 2007

Desperto


Voa meu passáro,
busca a vida sem medos e sem preconceitos
Tua gaiola ficou aberta por que esse era o teu desejo
tua lanterna ficou acesa porque buscavas caminhos
Leva contigo todas as possibilidades do nosso amanhã
Deixa comigo todos os fragmentos do nosso verão
Deixa a saudade....deixa a latência
Usa a verdade e não esquece da aparência
Pois essa é tão ou mais importante que a outra
pois é a moeda do mundo
é o passaporte pro inferno

Soltei todos os meus pássaros
A vida cativa matava algo dentro de mim
A escravidão do meu olhar me nauseava e me amargava
O acoite do meu toque me surpreendia no meu próprio sentido de mim
Quis todos os meus pássaros voando livres
Fiz todos meus diálogos pra viver leve, dormir tranquilo
Pra poder não acreditar em mais nada nem ninguem
Pra poder não esperar mais nada de ninguém
Pra poder não roubar suspiros
pra poder não chamar vampiros
pra poder cravar com tiros as vítimas da minha soleira

Soltei teus laços
Abri meus braços
Cantei as nossas músicas pra me esquecer
guardei as minhas suplicas pra te poupar
Tentei limpar as memórias também
Tentei lembrar de te ver com alguém
Calei sozinho, pensei no espinho, sem ter ninguém
Tudo isso pra ficar só
Tudo isso pra voltar pra casa
Tudo isso pra fechar as feridas e abrir as asas

Que raio de egoísmo é esse que abre mão do doce
que raio de fascismo é esse que sempre me envolve
que ponto de partida é esse ao qual sempre retorno
que saco de pancada é esse que eu sempre me torno
que medo de tristeza é esse que sempre me espreita
que tipo de ternura é essa que sempre me corta
que tipo de amargura é essa que sempre me volta
que tão sutil teu jeito que às vezes me falta
que tão gentil teu peito que sempre me acalma
que tão febril teu leite
que tão pueril teu flerte

Se eu nao tivesse medo de viver
faria cinco encarnações nessa existência
Se eu nao tivesse medo de ferir
daria vida então à toda a minha incoerência
Se eu nao tivesse um jeito de implodir
viveria toda a poesia que jamais escreverei
Se eu fosse mais livre de mim
Se eu fosse mais dono de mim
enfim

Hoje as pessoas estão todas com a garantia vencida
Meu primeiro tiro falhou
Talvez fosse o único
...e eu acreditando ainda ter balas na agulha
Hoje eu não consigo mais acreditar em ninguém
não tenho mais tempo pra me entregar
nao tenho mais forças pra me resgatar
Assisto de longe...resisto

Pra onde olho vejo mendigos
mendigos de dignidade
mendigos de atenção
mendigos de afinidade
mendigos de coração
mendigos da sociedade
mendigos da situação
Não tenho pares pra continuar
Não tenho ares pra me guiar
não tenho bares pra me embriagar
não tenho um copo amigo
nao tenho um abrigo...um lar

Minhas palavras ficaram sem eco
Minhas lembranças sem teto
Meus anseios ficaram no asfalto
meus receios me assaltam
minha esperança ficou sem atores
minha criança sem fronte
minha certeza sem fonte
minha prudência sem norte
minha doçura sem pote
dispersa
sem sorte
imersa
sem volta
morta

15 dezembro 2006

Prece por uma morte leve


Jaz tua culpa numa sombra de árvore. Fecha a janela e contempla uma nova paisagem. Nada vai morrer, tudo vai brotar com saudade. Renasce em paz.

08 dezembro 2006

Divagações: O eu em mim

Minha emoção me draga da minha existência.

05 novembro 2006

Fronteiras de mim


Abro portas até então fechadas pra mim
Sonhos se desfazem
indo ao nada como bolhas de sabão que estouram no ar...
Sonhos que me davam sustentação,
que me ajudavam a continuar levando,
a continuar acreditando que parte dos meus ideais fosse possível
que parte do meu passado fosse visível
que parte do meu pecado fosse perdoável

Acordo esbofeteado pela realidade
por cenas que eu poderia passar sem ver
por Helenas que podeira viver sem conhecer
por antenas que eu poderia simplesmente não ter

Mas guardo um modelo comigo
guardo com zêlo um pedaço do meu abrigo
guardo nos pelos a lembrança dos teus segredos
guardo as perguntas que eu nao entendo
e as respostas que eu não concedo
guardo o exemplo.

Meus cavalos ficaram atados às torres que foram incendiadas
Meu tabuleiro não tem mais rainha
Meus bispos rezam sem esperança de redenção
E eu redefino as bordas
Busco os novos extremos que me possam trazer de volta ao meu centro
Provo todos os venenos que me possam matar de novo em meu tempo
Conto todos os meus enganos...

17 outubro 2006

Garôa


Se não tens sono...não fiques à deriva na cama
Tome uma atitude
Não se desculpe
Até onde a falta de uma linha traz o senso crítico à tona
Quanto medíocre se pode ficar?
Quantas damas se pode usar?

Ainda não entendi o sentido das coisas
Tenho andado por novas pastagens
Tenho suado por novas paisagens
No fim tudo igual...só mudam as cores e os cheiros

A poesia ficou no passado
Talvez tenha ficado à margem de mim
Talvez meu guard-rail tenha se partido sem som

Os cantos são belos
A simbologia me traz abrigo
mas ainda não sei qual é a minha pena
nem soube quando foi a condenação...ou o motivo da acusação

Quem podeira mudar as regras desse jogo enfadonho
o dia esteve cinza...por vezes úmido
Nasce um novo estilo
surge um novo exílio

Navego em rios de aguas calmas
mas busco vãos tortuosos
minha alma está sedenta pelo novo
mas o meu...por favor com muito gelo e num copo baixo
gosto de mexer com o dedo

De contemplação eu já me enfastiei
De condecoração eu já me saciei
De paixão eu ja me afoguei
Agora eu quero entender onde está esse elefante
que eu sinto tão perto de mim
Agora em me cansei de estar errante
de estar tão longe de mim

Agora que meu choro seca minhas palavras
minha caneta escreve em outros tons
Minhas miragens emitem outros sons
Minhas bobagens revelam mais

Parti porque era tempo
Continuo sem rumo
continuo sem prumo

Brindo à morte...
porque é preciso vida pra morrer...
porque é preciso morte pra viver
porque é preciso sorte para sofrer...
porque é preciso sofrimento para ver...
porque é preciso consciência para ser...
porque é preciso ser ...
apenas ser

Divagações: Desapego


Quero abrir mão de mim
Quero abrir mão do meu desejo
Simplesmente colher as flores que encontrar no caminho
Simplesmente sorrir para os olhos que me olham sozinho
A vida não pode ser levada a sério
A vida não pode ser vivida
Não passe pela vida...
deixe que ela passe por você
...apenas exista
...apenas resista
...as penas

14 outubro 2006

Princesa Desencantada


Abdicou do trono de majestade sonhada. Faz frio no terraço do castelo impossível. No resgate da célula embrionária, pesou-lhe a responsabilidade por um organismo. Desceu da sela libertária com as mãos feridas de rédeas de muitos destinos. Sozinha no inverno de si própria, seus beijos morrem nos meus lábios desistidos.

28 setembro 2006

Diálogos: de mim para ti


Tua saudade abraça minha solidão.

19 agosto 2006

Cartas: Meus pontos

Sinto que tenhamos chegado a esse ponto...e sinto pela forma.
A vida, pra pessoas como nós, é mais do que uma conversa, um texto...é intensa...poética.
Vivemos muitas interrogações, alguns advérbios, toda a sorte de rimas e assimetrias,
muitos pronomes (às vezes os possessivos), várias figuras de linguagem, adjetivações - as boas no começo...depois, algumas que não queremos assumir, ver ou ouvir.

Mas no meio disso tudo, chega a hora de respirar, e às vezes essa é a mais difícil das decisões. Já usamos diversas virgulas, com e sem ponto em cima. Foram virgulas de duas horas, de uma noite, de uma semana, etc.

E acontece, que às vezes, uma virgula não é suficiente... e os três pontos são muito curtos pra nós. Nessa hora tentamos todo o nosso arsenal: hifens, interrogações, exclamações, e vários outros sinais que acabam escorregando e nos deixam com a impressão de algo ficou por ser dito...e essa situação não cabe para com pessoas cuja história seja tão fundamental dentro do livro de nossas vidas.

Nesse momento, precisamos experimentar o "ponto". E o grande problema do ponto é que não sabemos se ele é final ou não?!? O ponto nos deixa sem a perspectiva concreta de um novo parágrafo. O ponto nos abre para novos caminhos. O ponto fecha uma vivência. O ponto abre um desafio...que pode ter um novo título...novas personagens...outra proposta, outra métrica, outro sabor, outros sonhos, outras questões e outros problemas.

Que o nosso ponto seja colocado com honra, que seja ameno, que seja corajoso, e que dê uma pausa decente à nossa história...uma vez que temos que continuar a escrever e nem sempre podemos forçar o caminho, pois há momentos em que percebemos que a mão do destino também segura a caneta da vida.

Não sei o quanto posso dizer que te entendo nesse momento. É difícil medir o quanto o que somos para alguém está próximo do que acreditamos que sejamos - pior ainda dizer qual é o correto. Como você mesma já me disse, não importa o que fizeram de nós, mas o que fazemos do que fizeram de nós. Por isso escrevo ... pra fazer algo com o que foi feito de "nós" nos últimos tempos.

Agradeço por todo o "nós" que eu pude ter e viver nesse período. Agradeço por todo o "nós" que levo comigo. Agradeço por todo o "nós" que tanto me inspirou e tanto me ensinou a meu respeito, e lamento por todos os nós que esse "nós" tenha deixado pelo caminho, na certeza de que deles os laços tenham sido mais fortes, verdadeiros, e duradouros. Pelo menos por ora acredito na sua promessa - de que sempre estará por perto, e conto com isso profundamente. Precisamos de uma pausa, precisamos pensar, precisamos viver, a caneta precisa escrever.

Só faça o que tiver vontade, não tape buracos, pois cada um tem seu espaço e um não cabe onde outro existe. Não tenha pressa, tenha fé. Não sofra, ande, pois a vida está na estrada que deve ser percorrida. Não olhe pra trás, acredite na sua memória e no seu coração. Não seja fraca, pois és grande, tens estatura. Não se esconda.

De todas as qualidades que você sempre viu em mim, eu só consegui enxergar em você...minha outra metade.

12 agosto 2006

Ermo

Sempre mais além, sempre mais à parte, o desapegado expande o seu domínio fechando portas dentro de si. Desertor - senhor de desertos sem oásis - estende os braços para o abraço asfixiante da solidão. Abre asas, mas não se move, e retorna a si próprio ferido das batalhas que evitou.

22 julho 2006

Exílio

Urgência de inspiração e expiração da mulher rara. Frieza ainda morna do homem que se adivinhou caloroso. Amor ao próximo, desejo pelo remoto: confronto vencido pelo conforto. Paixão atemporal natimorta: valiosa informação inútil no arquivo morto. Palavras que doem no papel, feridas que sangram nas entrelinhas do contexto. Ausência. Abstinência. Carência. Saudades.
Porto um coração carregado - s e p a r a d o de mim.

15 julho 2006

Derivações: Coragem

Quem é profundo carrega um abismo sob os pés.